O Pinterest e o Slane

De tempos em tempos o Pinterest me manda notificações para mostrar quais foram os meus pins mais salvos pelo povo da internet, e adivinhe só. A figura que está sempre presente nessas notificações é o Slane! Mais especificamente, o PDF com a HQ dele.
 
O tempo passa, o tempo voa, a poupança Bamerindus já se foi numa boa, e o Slane segue firme e forte, não importa o quanto eu o ignore hoje em dia.
 
O Tony Fernandes, meu editor na época em que o Slane foi publicado, me dizia que os leitores gostavam do personagem “porque ele era durão”. Eu não faço a menor ideia de porque os leitores gostavam. Mas lembrei disso que o Tony falou e pensei numa coisa: como reagiriam os leitores da época se eu tivesse tido tempo de mostrar que aquele personagem durão, além de ser durão, era também gay? Nunca saberemos. 😀
 
Aí vai um skecth do Slane que fiz hoje de manhã enquanto pensava nessas coisas.sketch_slane.jpg

Medo de escrever

Ontem um leitor fez um comentário na minha página do Facebook falando sobre Dívida de Sangue, primeira HQ do Kário que fiz já há uns bons anos (13, para ser exato) e disse que havia lido a história na época em que ela fazia parte do acervo da Editora Nona Arte. Respondi dizendo que havia interrompido a continuidade do personagem devido a alguns pequenos “problemas” e que depois acabei indo fazer outras coisas.

Pretendia falar que “problemas” seriam esses ali mesmo no comentário, mas depois achei que seria melhor falar sobre isso em outro lugar, onde teria mais espaço.

Durante a vida encontrei outras pessoas com a mesma dificuldade. Não me considero alguém importante no cenário dos quadrinhos nacionais, mas tem algumas pessoas que se interessam pelo que tenho a dizer. Fiquei pensando que talvez essas pessoas tivessem o mesmo problema que eu (pelos depoimentos de escritores que vejo por aí, parece ser algo bastante comum entre pessoas que escrevem, ou tentam escrever), então falar da minha experiência pode ser útil para alguém.

Sempre tive medo de escrever. Quando olho o que estou escrevendo sempre acho que a história está fraca, ou simples demais, ou boba demais. O pensamento recorrente é “Quem eu penso que sou? Nunca vou ser tão bom quanto [*Insira o nome do seu(sua) autor(a) favorito(a) aqui*]“.

As poucas histórias que escrevi, acredite, é porque fui meio que “obrigado”. A primeira história “oficial”, publicada, foi o Slane. O editor Tony Fernandes havia me pedido para produzir uma HQ de herói e publicar nos almanaques que ele queria publicar. Na época eu era involuntariamente isolado do meio quadrinístico – não havia internet e eu não conhecia ninguém que escrevesse. O jeito era eu mesmo escrever. Peguei uns elementos de V de Vingança, HQ que havia me impressionado muito na época, e vi o que poderia fazer a partir daquilo. Para minha surpresa, depois de publicado, os leitores da editora acabaram gostando e… me vi numa enrascada. Eu estava tão certo de que ninguém iria se importar com aquela HQ que nem me dei ao trabalho de pensar no que faria a seguir. Não haveriam “capítulos seguintes” pra mim! Aí conheci na editora 3 rapazes que escreviam; tinham gostado do Slane e se ofereceram para escrevê-lo. Dei graças a Deus quando isso aconteceu. Fiquei livre da tarefa de escrever! Mas, não lembro porquê, eles acabaram não escrevendo. Algum tempo depois, a revista fechou, a editora também, e o personagem morreu ali (ou nem tanto, porque até hoje me aparecem pessoas falando dele).

Depois veio a Turma do Barulho, publicada pela Editora Abril. Outro “quase pesadelo”. Havia pouca gente para escrever (três, contando comigo, se bem me lembro), por isso nem poderia deixar de escrever ou isso comprometeria o trabalho de todos. Tínhamos uma revista mensal para fazer, era preciso criar histórias para abastecê-la. Como sempre acontece, se me obrigo a escrever na marra, acaba saindo alguma coisa. Não digo que sejam coisas brilhantes. Tudo podia ser inspiração: Rumo Às Estrelas, por exemplo, foi inspirada numa notícia que eu tinha visto no jornal sobre uns bandidos que deram um golpe numa escola.

Por isso, sempre que pude, tentei trabalhar com amigos roteiristas. Era mais confortável deixar que outro escrevesse para que eu não tivesse que fazer. Só que na vida a gente precisa enfrentar as coisas, cedo ou tarde, né?

Do ano passado para cá decidi voltar a escrever minhas HQs. Não que eu tenha alcançado alguma “iluminação” ou coisa parecida. Sempre que cometo a “ousadia” de escrever uma história nova, fico ouvindo aquela vozinha dentro da cabeça dizendo “Isso não é pra você, cara. Desista! Essa história tá uma droga, ninguém vai se interessar por ela!”. Um amigo me perguntou outro dia como fiz pra superar meu medo de escrever. Minha resposta foi: “Não superei”. O que eu fiz foi apenas tomar coragem e começar a escrever. Lembrando que coragem não é não ter medo, mas agir APESAR do medo.

A vozinha continua falando, porém agora com menos poder de influência sobre mim. Isso porque mudei o foco para outra direção (e se você também sofre para escrever, sugiro que faça o mesmo): o prazer que sinto ao criar uma história.

Quando aquela vozinha vier te aborrecer, deixe ela falando sozinha. Não tente dialogar com ela. Concentre-se na satisfação que você sente com a história que está escrevendo. Se você está curtindo fazê-la, existem boas chances de outras pessoas curtirem também.