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Kário – Roteiros em forma de layout

Tirei essa fotinho de algumas páginas de roteiro do Kário em que estou trabalhando. Eu faço os roteiros assim, em forma de layout – um tipo de “roteiro desenhado”. Não é o único jeito de fazer um roteiro, nem o melhor, muito menos o “certo”. É apenas o jeito que funciona melhor pra mim. Quando escrevo a história ao mesmo tempo em que faço os esboços das cenas consigo antever se minhas ideias vão caber na página, se não tem texto demais, se a narrativa está funcionando, coisas assim…

Depois eu escaneio uma página a lápis do Jeanzinho e posto aqui pra vocês verem. 🙂
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narrativa

Texto sobre narrativa editado

Decidi editar a parte final do meu texto sobre narrativa porque ele estava tendencioso, puxando a sardinha para o meu lado… Penso que isso não é bom e que o ideal é deixar cada um escolher a narrativa que achar melhor para si.

O texto editado está agora, creio eu, menos tendencioso e bem melhor.

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O ritmo nos quadrinhos

Hoje vamos falar sobre ritmo de leitura nos quadrinhos. Usei praticamente só exemplos do Frank Miller porque ele me deu o que precisava para esse assunto.

Como de costume, aviso que a intenção aqui não é criar regras… Apenas compartilhar o pouco que sei com as pessoas que vêm me visitar.

Há quem diga que o cinema e os quadrinhos são “irmãos”, talvez por terem surgido quase na mesma época. Eu penso que não, embora haja entre eles um ou outro ponto em que se tocam. O cinema é a arte que faz o registro do tempo usando o próprio tempo, enquanto os quadrinhos o fazem usando o espaço. No cinema, o diretor determina quanto tempo durará uma cena. Nos quadrinhos, é o leitor quem determina – embora tenhamos alguns elementos com os quais podemos sugerir o ritmo da leitura. Apenas sugerir. O controle estará sempre na mão do leitor.

Existem maneiras diferentes de conseguir isso; depende do autor, da intenção, do estilo da história, etc. A primeira e mais óbvia é a narrativa – a quantidade de texto e imagem que mostramos em cada seqüência, sobre a qual já tratamos aqui.

Acelerando a ação!

Quando um diretor de cinema deseja criar uma cena de ação intensa, ele precisa fazer cortes rápidos, fragmentados, além de uma música explosiva para transmitir ao leitor a sensação de velocidade. Ele tem o controle do tempo a seu favor, e pode manipulá-lo o quanto quiser. Nós não temos nada disso. Os recursos dos quadrinhos são outros.

Se você pensar que o desenho é um símbolo e que portanto faz parte da leitura assim como as letras e as palavras, então vai chegar à conclusão de que um quadrinho numa página pode ter sua leitura mais rápida ou mais lenta dependendo da quantidade de informação visual que há nele, tanto quanto se houvesse mais ou menos texto num balão ou recordatório.

Veja nessas páginas do Frank Miller como ele conseguiu uma sequência de leitura rápida (adequada para uma cena de ação). Se ele tivesse acrescentado cenários detalhados no fundo isso tornaria a leitura dos quadros mais lenta, e a sensação de urgência da cena ficaria prejudicada. Sem os cenários, o foco da ação ficou apenas nos personagens. Repare também que os quadros onde há mais cenários (os últimos) são justamente a parte onde entra um texto reflexivo, que pede um ritmo mais lento. No último quadro, que tem um formato mais estreito,  é possível até imaginar que, se fosse um filme, essa cena seria um travelling. Mas como aqui não é cinema, em vez de fazermos a câmera passear pelo quadro, fazemos os olhos do leitor passearem por ele.

Segurando o tempo

Fazendo novamente uma comparação com os filmes, há basicamente duas formas de tornar o ritmo mais lento, dependendo do objetivo: o travelling e a câmera lenta. Os quadrinhos têm recursos equivalentes.

Nessa página da clássica minissérie Batman – O Cavaleiro das Trevas, Frank Miller usou uma narrativa fragmentada (equivalente à câmera lenta do cinema) para tornar a cena lenta e criar o clima de tensão.

A outra forma de segurar o ritmo da leitura é o seguinte. Se você concordar que para acelerarmos a ação numa HQ nós reduzimos a quantidade de informação, então para diminuir o ritmo podemos ir para o caminho oposto.

Frank Miller fez isso nessa cena. Ao fazer um grande quadro, com vários personagens e ações acontecendo simultaneamente, ele faz com que o leitor gaste mais tempo para absorver tudo o que acontece na cena, deixando-a assim com uma leitura mais lenta.

Ou você pode tentar ficar louco e seguir o exemplo do Geof Darrow!

Qual recurso é melhor? Depende do seu objetivo. Na sequência fragmentada, imitando a câmera lenta do cinema, o objetivo é provocar tensão no leitor; no quadro grande, hiperdetalhado, o objetivo é causar espanto ou admiração.

Agora é com você!

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Narrativa

O que é narrativa?

Narrar – em quadrinhos – é criar uma sequência de imagens que transmita ao leitor todos os eventos de uma história de maneira clara. Você sabe que se tornou um bom narrador quando os leitores conseguem entender o que se passa numa história mesmo sem ler os textos. Mas o assunto aqui não é exatamente esse, e sim…

Modelos Narrativos

Existem basicamente 3 modelos narrativos principais, dos quais todos os outros derivam. O americano, o japonês, e o francês. A diferença entre um e outro está na relação imagem-texto – o quanto de cada um é exposto em cada quadro e página. Há razões técnicas e históricas para explicar porque cada modelo se desenvolveu de uma forma, mas vou deixar esse tema de lado para manter o foco e não me alongar demais.

  • No modelo americano, temos relativamente poucos quadros por página (em torno de 5 ou 6), splash pages (quadros que ocupam a página toda), e grande quantidade de texto (hoje menos, devido à influência dos mangás). A narrativa é mais compacta. O quadro abaixo é uma splashpage de uma revista da DC Comics, onde vemos o personagem Darkseid em destaque, cercado por vários balões de texto. Se fosse um mangá (ou uma HQ da Bonelli), essa cena seria dividida em vários quadros, distribuindo o texto entre eles de modo a tornar a narrativa mais fluida. Uma HQ francesa também dividiria a cena em vários quadros, a diferença é que não teria “quadros silenciosos” – truque típico dos mangás para tornar as cenas mais dramáticas.

  • No japonês, há em geral menos quadros ainda por página e pouco texto; a narrativa é bastante visual e fragmentada, e consequentemente há uma quantidade maior de páginas por edição. A página dupla abaixo é do mangá Lobo Solitário, na qual se nota que o clima da cena vai sendo construído quase que totalmente pelo uso de imagens, mais do que pelo texto. Se fosse uma HQ americana, provavelmente se usaria apenas o primeiro quadro, com o clima da cena sendo estabelecido por textos em recordatórios; um quadro mostrando a reação dos personagens; e o último mostrando os pensamentos do personagem. Uma HQ francesa seguiria um esquema parecido, mas possivelmente sem o uso de recordatórios no primeiro quadro e, como essa sequência ficaria mais compacta, a página completa teria um número maior de quadros que seriam ocupados com a ação subsequente (mais conteúdo, portanto).

  • Por fim, temos o modelo francês, que de certa forma é uma fusão dos dois anteriores… Combina sequências com uma narrativa mais densa e outras mais fragmentadas. Tem mais quadros por página do que uma HQ americana ou japonesa. Isso pode ser visto na página abaixo, da série francesa XIII, onde há uma pequena sequência mais detalhada (a correria de XIII dentro do banco) e a saída do mesmo, até chegar à rua e pegar um táxi (com cortes maiores entre uma ação e outra). Numa HQ americana, haveria mais um ou dois painéis entre os quadros 5 e 6, e 7 e 8. Se fosse um mangá, haveria um número muito maior de painéis inseridos em toda essa sequência (e, consequentemente, seria desdobrada em mais páginas).

Todos esses modelos têm vantagens e desvantagens. Todos são válidos e acredito que quem começa a fazer quadrinhos deve experimentar os três, e só depois escolher um que se encaixe melhor naquilo que cada um acredita que os quadrinhos sejam.

E às vezes essa escolha depende da quantidade de páginas disponíveis para se contar uma história.

A narrativa dos mangás é muito sedutora. A principal vantagem da narrativa cinematográfica empregada nos mangás (e também nos quadrinhos da Sergio Bonelli Editore, que deixei de fora desta lista por causa do critério que usei para montá-la) é a capacidade de fazer o leitor imergir na história com muita facilidade. Mas para trabalhar nesse formato, é preciso ter à disposição um grande número de páginas – o que nem sempre é possível.

Se o que se busca é transmitir um maior volume de informação numa quantidade menor de páginas, a narrativa americana acaba sendo a melhor escolha.

E a escola franco-belga, creio eu, junta o melhor dos dois mundos.

Algumas coisas para se levar em conta

  • Por mais sedutora que a narrativa cinematográfica seja, não posso deixar de pensar que imitar a narrativa do cinema é uma forma de rebaixar os quadrinhos como uma arte menor, que precisa imitar “o primo rico” para ser melhor aceita. Lembro das palavras de um amigo meu: “lugar da narrativa cinematográfica é no cinema”. Em vez de tentar reproduzir no papel aquilo que o cinema pode fazer (o que não conseguiremos, por serem linguagens totalmente diferentes), por que não procurarmos fazer aquilo que o cinema não pode? Não só na narrativa, mas também no conteúdo. Cinema tem restrições orçamentárias, quadrinhos não. O único limite dos quadrinhos é a imaginação.
  • A imaginação, na narrativa, é absolutamente necessária. Uma história em quadrinhos não mostra tudo que acontece entre um quadro e outro; precisamos da imaginação para preencher essas lacunas e completar a sequência de imagens em nossa mente. Que tal darmos um pouco de trabalho mental para o leitor, sem lhe entregar tudo mastigadinho?
  • O desafio da narrativa é saber selecionar exatamente quais serão as cenas-chave necessárias para contar a história sem deixar o leitor confuso. Um quadro a menos pode colocar tudo a perder. Saber quais quadros são necessários e quais não, só vem com a experiência e estudo. Pratique!