Lido: Long John Silver – Vol. 1

Quando peguei o livro A Ilha do Tesouro para ler muitos anos atrás, o fiz sem muito entusiasmo. Eu gostava da figura dos piratas quando era criança, mas conforme fui crescendo e vendo umas histórias (desinteressantes, na minha opinião) de piratas aqui e ali, acabei pegando birra desses personagens. Mas era Stevenson, e era também um clássico da literatura universal, então lá fui eu dar uma olhada.

Bom, li o livro todo e o achei um tanto maçante. O que não quer dizer que você não o deva ler só porque eu disse isso… É uma questão de gosto pessoal; como não gosto de piratas e histórias de piratas, o problema pode ser comigo e não com o livro.

Mas haviam coisas bacanas o bastante no livro pra me segurar ali até o final. Entre elas destaco os personagens. Gosto muito de Jim Hawkins e, claro, de John Silver. O pirata da perna de pau é realmente um personagem fascinante. Não por suas atitudes, evidentemente, mas pela maneira como ele é construído. Afinal: quem é Silver? Um homem “bom” que se fez mau para sobreviver no mundo em que vive? Ou um cara mau que se faz de bonzinho para manipular os outros? O livro termina sem nos dar a resposta a essa questão. E parece ser essa pergunta – “Quem é John Silver?” – que motivou os autores Matthieu Laufray e Xavier Dorison a realizarem essa série em 4 volumes.

 

O primeiro volume, “Lady Vivian Hastings” tem como foco essa mulher forte, decidida e amoral, esposa do aristocrata falido Byron Hastings. A história começa com ele navegando em algum ponto do rio Amazonas e descobrindo a cidade perdida de Guyanacapac – uma promessa de tesouros inimagináveis. Manda, então, para a Inglaterra o índio Moxtechica a fim de procurar seu irmão, Edward, e encarregá-lo de vender “sua” mansão e propriedades (na verdade, herança da família de sua esposa Vivian) para financiar o restante da expedição.

O plano original de Byron e Edward seria deixar Vivian na Inglaterra, dentro de um convento. Mas Vivian não é o que se pode chamar de mulher submissa… Ela tem um plano, e para realizá-lo contará com a ajuda de um certo pirata com uma perna de pau.

Essa primeira história se concentra em apresentar os personagens e a trama. Não há muita “ação física” para os que gostam disso – exceto na parte em que Silver parte para “arranjar” um barco de um “amigo” para a expedição. Mas veja bem: falta de cenas de ação não é o mesmo que “história parada”: ela está sempre em movimento, pela (ótima) construção dos personagens e da rede de intrigas e interesses que os cercam.

Achei todos os personagens muito interessantes, mas quem acaba chamando mais a  atenção, claro, é o velho John Silver. Ele é exatamente o mesmo personagem de A Ilha do Tesouro, sem tirar nem por! Outro personagem do livro que também dá as caras é o Doutor Livesey, que é o narrador da história.

Se algum de vocês quiser ler, o álbum está disponível no Issuu. Queria que alguma editora publicasse esses álbuns por aqui!

Lido: Thorgal – A Feiticeira Traída

Conheci Thorgal há muito anos, já no segundo volume da série – “A Ilha dos Mares Gelados” – lançado no Brasil pela editora VHD Difusion em meados dos anos 1990.
Na época não fiquei muito impressionado, nem pelo desenho nem pelo roteiro. Em relação ao desenho, creio que fosse porque eu tinha uma outra idéia do que fosse uma boa arte para HQs, e Thorgal tinha um estilo muito diferente disso; quanto ao roteiro, creio que minha cisma era em relação ao (pequeno) elemento de ficção científica presente no enredo, o que na minha opinião de então, não tinha nada a ver com a temática do personagem. Talvez eu ainda estivesse muito habituado às histórias do Conan e achasse estranho ter elementos de ficção científica numa história de fantasia heróica. Mas agora que tenho a oportunidade de conhecer melhor o personagem e seu universo, percebo que isso não só explica muito sobre a personalidade de Thorgal, como tem consequências importantes no futuro da série, quando ela continua com seus filhos. Thorgal é definitivamente algo muito diferente do Conan… Trata-se de uma mistura de aventura, fantasia, misticismo e ficção científica, tudo ao mesmo tempo!
Em “A Feiticeira Traída”, ficamos sabendo que Thorgal é um bastardo de origem desconhecida, e que justamente por isso Gandalf-o-Louco, rei dos vikings do norte, não pode deixar que ele se case com sua filha Aaricia. Para livrar-se desse embaraço, Gandalf decide prender Thorgal a uma rocha, à beira do mar, onde ele deverá morrer afogado em poucas horas, assim que a maré subir. Thorgal é salvo pela feiticeira Slive, com uma condição: em troca de sua vida, Thorgal deve servi-la por um ano, sem questionar. Assim, Slive o usa para colocar em prática seu plano de vingança contra o rei Gandalf.
Esse álbum vem ainda com uma história curta de bônus, “Quase o Paraíso”. Durante uma jornada, Thorgal vai parar acidentalmente num lugar paradisíaco, onde nunca mais sofrerá dor, nem fome, nem frio, tendo ainda 3 mulheres para si, além de se tornar imortal! O único preço a pagar por isso é que ele nunca mais poderá sair daquele lugar…
Os roteiros, como é habitual com Van Hamme, têm ótimas reviravoltas. E eu adoro a maneira como ele trabalha o misticismo em Thorgal – na minha opinião, de forma bem mais criativa do que em Conan, por exemplo (e saiba que eu sou fâ do cimério!).
No desenho, gosto de ver a evolução artística de Rosinski. Nesse primeiro álbum, ele ainda desenha com um estilo um pouco caricatural, mas no decorrer da série, a cada volume, vemos que seu traço vai ficando cada vez mais realista e sofisticado – embora eu não esteja dizendo de forma alguma que tenha achado seus desenhos ruins. Adoro o traço dele, solto e visceral!
Então, para quem gosta de uma boa história de fantasia heróica, creio que Thorgal é uma ótima pedida!
Os criadores
Thorgal foi criado pelo roteirista belga Jean Van Hamme. Licenciado em economia, deixou seu trabalho como diretor-geral da Phillips belga para se tornar escritor. Na minha modesta opinião, é um dos mais imaginativos escritores de quadrinhos que existem. E parece que o público franco-belga concorda: tudo que Van Hamme escreve, vende!

Quem desenha a série é o Grergorz Rosinki, artista polonês que começou a carreira ilustrando capas de disco e livros didáticos infantis. Mudou-se para Bruxelas, na Bélgica, no final dos anos 1970 onde conheceu o roteirista Van Hamme. Ele havia produzido outras obras já na Bélgica, mas seu primeiro grande sucesso foi mesmo Thorgal.

Links para baixar vários álbuns do Thorgal: http://tralhasvarias.blogspot.com.br/2012/11/thorgal-todos-os-numeros.html#more

Lido: Yoko Tsuno – O Trio do Mistério

Li há poucos dias O Trio do Mistério, primeiro álbum da série da Yoko Tsuno, personagem dos quadrinhos franco-belgas que há muito tempo queria conhecer!

 

Nessa aventura de estréia, Yoko Tsuno conhece Vic Vídeo e Pol Pitron (traduzido no álbum como “Paulo”), que se tornariam seus parceiros ao longo de todos os álbuns seguintes, e se vê às voltas com os Vineenses, alienígenas vindos do planeta Vinea há milhares de anos e que vivem escondidos no interior da Terra.

A história tem aquele clima de “Sessão da Tarde de antigamente”, com uma narrativa bem fluida e ação que não para (como convém a uma história juvenil de aventura). Em alguns momentos, aqui e ali, a história soa datada – compreensível para uma HQ feita em 1972. Talvez os fãs de ficção científica mais exigentes não considerariam a história genial, mas não se pode negar que Roger Leloup é um autor competente. Trata-se de um “quadrinho-pipoca’ honesto, sem a pretensão de revolucionar nada, feito para leitores de todas as idades (como grande parte dos quadrinhos franco-belgas).

O grande destaque são os desenhos de Leloup. Tem uma arte detalhada e minuciosa, perfeita para esse estilo de HQ, que nos brinda com várias cenas espetaculares, nesse álbum…

… e ao longo de toda a série.

Uma coisa que achei curiosa nesse álbum é que o desenho de Leloup vai mudando aos poucos durante a história. Algo que é bastante comum com todos os desenhistas ao longo de suas carreiras, mas não tão comum em uma mesma obra! Ele começa com um traço cartunesco, mas depois vai adotando um estilo mais realista. Deduzo eu que seja porque ele percebeu que uma abordagem um pouco mais realista se encaixava melhor no tipo de HQ que estava fazendo. Como um músico faz ao afinar um instrumento. E a Yoko foi passando por transformações ao longo do tempo, como é normal de acontecer a qualquer personagem.

Origem

Yoko Tsuno surgiu em 1968, em histórias curtas publicadas na revista Spirou, célebre revista de quadrinhos franco-belga por onde passaram grandes nomes dos quadrinhos europeus. A princípio os roteiros eram feitos por Maurice Tillieux, sendo depois assumidos pelo próprio Roger Leloup, quando este começou a fazer os álbuns. Consta que, no início, Yoko não era a personagem principal da série, e que os editores teriam decidido estabelecê-la como protagonista devido ao sucesso de Natacha, a primeira heroína dos quadrinhos franco-belgas (e também publicada na Spirou). Yoko seria, então, a segunda heroína surgida nesse meio predominantemente masculino.

Roger Leloup

O desenhista começou sua carreira como assistente de alguns grandes nomes da HQ franco-belga, como Jacques Martin (criador de Alix), e depois nos Estúdios Hergé (Tintim), onde desenhava cenários – especialmente veículos. É criação dele o famoso avião Carreidas 160 Jet, que aparece no aventura de Tintim “Vôo 714 Para Sidney“.