Antes de criticar…

Vinha andando pela rua hoje à tarde, em meus caminhos intranquilos, quando passei perto de um carro mui pitoresco. Não me pergunte que carro era, não conheço nada além de fusca. Era um carro pequeno, de modelo um tanto antigo, com as rodas rebaixadas. Parecia ter sido personalizado (é tunado que fala, né?) pelo Falcão, com algumas dicas de decoração do Tiririca. Eu já ia rir, quando fui repreendido pelo severo aviso estampado na janela traseira do carro: “Antes de criticar meu carro, termine de pagar o seu!”. Como ando de ônibus e não tenho absolutamente nenhum carro, concluí que … Continuar lendo Antes de criticar…

Rua das Sete Casas

“Rua das Sete Casas”. Não é o verdadeiro nome da rua, mas é assim que minha família e eu nos referimos a ela. Quem vê hoje vê essas casas assim, com esse aspecto de abandono, nem imagina que aqui já foi um lugar cheio de vida. Lembro do som de músicas antigas que saía de uma delas. Às vezes a música da vitrola parava para dar lugar a um jovem rapaz que sentava perto da calçada tirando algumas canções do violão. Um senhor rotundo, metido eternamente numa camiseta regata verde, ficava sentado à porta, ouvindo rádio e olhando a rua. Meninos … Continuar lendo Rua das Sete Casas

Esmola (Crônica)

Saindo do banco, onde fui buscar uns caraminguás para resolver pequenas questões financeiras imediatas, eis que um braço escuro e magro emerge da calçada para chamar minha atenção. Era um morador de rua (ou alguém que se passava por tal – hoje em dia, como ter certeza?): – Me vê dez reais, pelo amor de Deus! Pensei cá com meus botões: “Dez reais? DEZ REAIS? Diabos, o que houve com o ‘Um trocadinho pelo amor de Deus?’ A inflação está tão alta assim?”. O homem, obviamente sem saber da minha precária situação financeira, aguardava com a mão estendida os dez … Continuar lendo Esmola (Crônica)

Capitalismo posto à mesa (Crônica)

Freqüentemente era a mesa forrada apenas pela metade, o que indicava a separação, ou divisão, que existia naquela família. Também revelava que, ali, ninguém apreciava muito fazer suas refeições juntos, pois nesse caso a mesa ficaria toda forrada, como um convite para que todos estivessem ali. Um e outro, cada um na sua vez, senta ali para comer algo. Migalhas de pão espalhadas pela toalha, ninguém pensa em limpar. Mãe escrava existe para isso, talvez o único tipo de escravismo não apenas não abolido, como ainda incentivado. Os cachorros em volta da mesa, com olhar pedinte. Talvez caísse alguma migalha. … Continuar lendo Capitalismo posto à mesa (Crônica)

Canetinhas Coloridas (Crônica)

Andando pela rua, fui visitado pelo meu passado. Ele veio até mim na forma de uma mão magra e um tanto calejada, que me estendia um pacote de canetinhas coloridas. Não sei se ele me reconheceu, mas eu sim. Fácil: ele tinha praticamente o mesmo aspecto desde a última vez que o vi… Quando, uns 28 anos? Exceto por um pequeno e natural envelhecimento da pele, estava tudo lá: os óculos de aro grosso preto, o cabelo escorrido, a cara triste… O mesmo olhar perdido, de alguém que não consegue se ajustar ao mundo e anda à margem da vida. … Continuar lendo Canetinhas Coloridas (Crônica)