Medo de escrever

Ontem um leitor fez um comentário na minha página do Facebook falando sobre Dívida de Sangue, primeira HQ do Kário que fiz já há uns bons anos (13, para ser exato) e disse que havia lido a história na época em que ela fazia parte do acervo da Editora Nona Arte. Respondi dizendo que havia interrompido a continuidade do personagem devido a alguns pequenos “problemas” e que depois acabei indo fazer outras coisas.

Pretendia falar que “problemas” seriam esses ali mesmo no comentário, mas depois achei que seria melhor falar sobre isso em outro lugar, já que esses “problemas” se resumem a uma coisa só: minha insegurança para escrever histórias.

Durante a vida encontrei outras pessoas com a mesma dificuldade. Eu não me considero alguém importante no cenário dos quadrinhos nacionais, mas há algumas pessoas que se interessam pelo que tenho a dizer. Fiquei pensando que talvez haja outras pessoas com o mesmo problema que eu (pelos depoimentos de escritores que vejo por aí, parece ser algo bastante comum entre pessoas que escrevem, ou tentam escrever), então pode ser que falar da minha experiência seja útil para alguém.

Sempre tive medo de escrever. Quando olho o que estou escrevendo sempre acho que a história está fraca, ou simples demais, ou boba demais. Fico pensando “Quem eu penso que sou? Nunca vou ser tão bom quanto [*Insira o nome do seu(sua) autor(a) favorito(a) aqui*]“.

As poucas histórias que escrevi, acredite, é porque fui meio que “obrigado”. A primeira história “oficial”, publicada, foi o Slane. O editor Tony Fernandes havia me pedido para produzir uma HQ de herói para publicar nuns almanaques que ele queria publicar. Na época eu era involuntariamente isolado do meio quadrinístico, não havia internet, eu não conhecia ninguém que escrevesse… O jeito foi escrever eu mesmo. Peguei uns elementos de V de Vingança, HQ que havia me impressionado muito na época, e vi o que poderia fazer a partir daquilo. Para minha surpresa, os leitores da editora acabaram gostando e… me vi numa enrascada. Eu estava tão certo de que ninguém iria se importar com aquela história que nem me dei ao trabalho de pensar no que faria a seguir. Não haveriam “capítulos seguintes” pra mim! Aí conheci na editora 3 rapazes que escreviam; tinham gostado do Slane e se ofereceram para escrevê-lo. Dei graças a Deus quando isso aconteceu – fiquei livre da tarefa de escrever! Não lembro porquê, eles acabaram não escrevendo. A revista fechou, a editora também e o personagem morreu por aí (ou nem tanto, porque até hoje me aparecem pessoas falando dele).

Depois veio a Turma do Barulho, publicada pela Editora Abril. Outro “quase pesadelo”. Havia pouca gente para escrever (três, contando comigo, se bem me lembro), por isso nem poderia deixar de escrever ou isso comprometeria o trabalho de todos. Tínhamos uma revista mensal para fazer, era preciso criar histórias para abastecê-la. Como sempre acontece, se me obrigo a escrever na marra, acaba saindo alguma coisa. Tudo podia ser inspiração. Rumo Às Estrelas, por exemplo, foi inspirada numa notícia que eu tinha visto no jornal sobre uns bandidos que deram um golpe numa escola.

Por isso, sempre que pude, tentei trabalhar com amigos roteiristas. Era mais confortável deixar que outro escrevesse para que eu não tivesse que enfrentar isso. Só que na vida a gente precisa enfrentar as coisas, cedo ou tarde, né?

Do ano passado para cá decidi voltar a escrever minhas HQs. Não que eu tenha alcançado alguma “iluminação” ou coisa parecida. Sempre que cometo a “ousadia” de escrever uma história nova, fico ouvindo aquela vozinha dentro da cabeça dizendo “Isso não é pra você, cara. Desista. Essa história tá uma droga, ninguém vai se interessar por ela!”. Um amigo me perguntou outro dia como fiz pra superar meu medo de escrever. Minha resposta foi: “Não superei”. O que eu fiz foi apenas tomar coragem e começar a escrever. Lembrando que coragem não é não ter medo, mas agir APESAR do medo.

A vozinha continua falando, porém agora com menos poder de influência sobre mim. Isso porque mudei o foco para outra direção (e se você também sofre para escrever, sugiro que faça o mesmo): o prazer que sinto ao criar uma história. Desde que voltei a escrever, fiz 3 histórias do Jeanzinho, tem uma quarta a caminho e ideias para mais outras. Eu me divirto pra caramba quando estou escrevendo e desenhando ele. Com meu alter ego infantil ainda aprendi uma coisa legal: a capacidade de rir de mim mesmo. E isso é libertador! Eu ria muito enquanto escrevia e desenhava O Menino Quase Nu, por exemplo, e rio até hoje quando revejo 🙂 E ainda tem uma história nova do Kário sendo escrita.

Então é isso: quando aquela vozinha chata vier te aborrecer, deixe ela falando sozinha. Não tente dialogar com ela. Concentre-se na satisfação que você sente com a história que está escrevendo. Se você está curtindo fazê-la, existem boas chances de que outras pessoas vão curtir também.

Um comentário

  1. Bacana demais esse depoimento. E talvez sirva para outras artes… coisas como cantar, dançar, e quem sabe talvez até “conversar”. Há pessoas que congelam diante do mais simples desafio, e isso não é demérito, acho totalmente natural. Você foi ao cerne da questão ao falar que “coragem é agir apesar do medo”. Lembro que quando mudava de escola tinha “medo” ou “vergonha” de conversar com os outros guris. O desconhecido está sempre a nossa frente seja na folha de papel em branco seja na curva da próxima esquina . Você nunca sabe se vai encontrar no ponto de ônibus um amigo ou um batedor de carteira, mas ainda assim é necessário pegar o ônibus.
    Excelente dica! O Mino, cartunista criador do personagem Capitão Rapadura, sempre diz que a palavra Super vem de Superação 🙂 E que todo mundo pode ser um pouco super quando se supera! Abração Forte, Jean Okada!

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