Hoje vamos falar sobre ritmo de leitura nos quadrinhos. Usei praticamente só exemplos do Frank Miller porque ele me deu o que precisava para esse assunto.

Como de costume, aviso que a intenção aqui não é criar regras… Apenas compartilhar o pouco que sei com as pessoas que vêm me visitar.

Há quem diga que o cinema e os quadrinhos são “irmãos”, talvez por terem surgido quase na mesma época. Eu penso que não, embora haja entre eles um ou outro ponto em que se tocam. O cinema é a arte que faz o registro do tempo usando o próprio tempo, enquanto os quadrinhos o fazem usando o espaço. No cinema, o diretor determina quanto tempo durará uma cena. Nos quadrinhos, é o leitor quem determina – embora tenhamos alguns elementos com os quais podemos sugerir o ritmo da leitura. Apenas sugerir. O controle estará sempre na mão do leitor.

Existem maneiras diferentes de conseguir isso; depende do autor, da intenção, do estilo da história, etc. A primeira e mais óbvia é a narrativa – a quantidade de texto e imagem que mostramos em cada seqüência, sobre a qual já tratamos aqui.

Acelerando a ação!

Quando um diretor de cinema deseja criar uma cena de ação intensa, ele precisa fazer cortes rápidos, fragmentados, além de uma música explosiva para transmitir ao leitor a sensação de velocidade. Ele tem o controle do tempo a seu favor, e pode manipulá-lo o quanto quiser. Nós não temos nada disso. Os recursos dos quadrinhos são outros.

Se você pensar que o desenho é um símbolo e que portanto faz parte da leitura assim como as letras e as palavras, então vai chegar à conclusão de que um quadrinho numa página pode ter sua leitura mais rápida ou mais lenta dependendo da quantidade de informação visual que há nele, tanto quanto se houvesse mais ou menos texto num balão ou recordatório.

Veja nessas páginas do Frank Miller como ele conseguiu uma sequência de leitura rápida (adequada para uma cena de ação). Se ele tivesse acrescentado cenários detalhados no fundo isso tornaria a leitura dos quadros mais lenta, e a sensação de urgência da cena ficaria prejudicada. Sem os cenários, o foco da ação ficou apenas nos personagens. Repare também que os quadros onde há mais cenários (os últimos) são justamente a parte onde entra um texto reflexivo, que pede um ritmo mais lento. No último quadro, que tem um formato mais estreito,  é possível até imaginar que, se fosse um filme, essa cena seria um travelling. Mas como aqui não é cinema, em vez de fazermos a câmera passear pelo quadro, fazemos os olhos do leitor passearem por ele.

Segurando o tempo

Fazendo novamente uma comparação com os filmes, há basicamente duas formas de tornar o ritmo mais lento, dependendo do objetivo: o travelling e a câmera lenta. Os quadrinhos têm recursos equivalentes.

Nessa página da clássica minissérie Batman – O Cavaleiro das Trevas, Frank Miller usou uma narrativa fragmentada (equivalente à câmera lenta do cinema) para tornar a cena lenta e criar o clima de tensão.

A outra forma de segurar o ritmo da leitura é o seguinte. Se você concordar que para acelerarmos a ação numa HQ nós reduzimos a quantidade de informação, então para diminuir o ritmo podemos ir para o caminho oposto.

Frank Miller fez isso nessa cena. Ao fazer um grande quadro, com vários personagens e ações acontecendo simultaneamente, ele faz com que o leitor gaste mais tempo para absorver tudo o que acontece na cena, deixando-a assim com uma leitura mais lenta.

Ou você pode tentar ficar louco e seguir o exemplo do Geof Darrow!

Qual recurso é melhor? Depende do seu objetivo. Na sequência fragmentada, imitando a câmera lenta do cinema, o objetivo é provocar tensão no leitor; no quadro grande, hiperdetalhado, o objetivo é causar espanto ou admiração.

Agora é com você!

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