Andando pela rua, fui visitado pelo meu passado. Ele veio até mim na forma de uma mão magra e um tanto calejada, que me estendia um pacote de canetinhas coloridas.

Não sei se ele me reconheceu, mas eu sim. Fácil: ele tinha praticamente o mesmo aspecto desde a última vez que o vi… Quando, uns 28 anos? Exceto por um pequeno e natural envelhecimento da pele, estava tudo lá: os óculos de aro grosso preto, o cabelo escorrido, a cara triste… O mesmo olhar perdido, de alguém que não consegue se ajustar ao mundo e anda à margem da vida.

Na adolescência estudava na mesma escola que eu. Sempre o via sozinho. Durante os dois ou três anos em que o vi circular pelos corredores e pelo pátio da escola, nunca o vi conversar com alguém. Ele era invisível, ou quase. Só o percebi por causa da minha natural identificação com os desprezados pela sociedade que trago comigo desde sempre. Entretanto, nem eu falava/falei com ele. Na época eu tinha ainda menos habilidades sociais do que hoje.

Se é verdade que não se deve zombar dos nerds porque no futuro serão nossos patrões, o que deu errado com aquele espécime? O cara vende canetinhas na rua. E traz ainda o mesmo olhar triste, de quem foi esmagado pelo mundo e não encontra lugar aqui. Um olhar de desespero sufocado dia após dia, dia após dia…

Recusei as canetinhas. Insensibilidade?. Ele passou por mim e foi embora. Não olhei para trás.

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